Dado este longo intervalo de cinco dias, retomo meus escritos. E como prometido, agora em breve "trégua" com minhas perturbações, venho transcrever algumas percepções que se apresentaram à minha consciência no decorrer desses últimos dias.
Comumente esses frutos de elucubração emergem no decurso dos longos minutos em que me encontro enlatada no ônibus, a percorrer a cortês paisagem urbana no auge de suas nuances crepusculares. Mas diferentemente da maioria de minhas reflexões, esta surgiu enquanto eu esperava o relógio alcançar a hora de início da minha aula.
Como em toda terça-feira, acomodei-me sutil e silenciosamente sobre o corrimão que cerca o gracioso jardim dos corredores. E debruçada sobre as próprias pernas, no aguardo desapressado da chegada de meu docente, permaneci por alguns minutos. Enquanto um sol prematuro driblava os pilares de concreto do recinto e se preparava para podar minhas asas, um compasso açodado rompeu meu silêncio mental, e irrompeu-me de ouvir mais atentamente àquilo que era a única manifestação sonora do ambiente: o grito tácito de individualidade nos passos únicos da gente que ali passava. Um agudo de borracha de tênis no chão encerado, um oco cravado pelo salto-médio, um contínuo e arrastado deslizar de chinelos... Cerca de uma hora ouvindo a sinfonia de tais solitários e singulares passos. Engraçado que, de alguma maneira, enquanto ali estive cabisbaixa a acompanhar e contemplar a expressão da pisada de cada indíviduo, me ocorreu de pensar surpresa no quanto os homens encontram-se isolados. Mais tarde, ainda no mesmo dia, retomei essas idéias ao passo que os passos silenciosos foram substituídos pelo silencioso rugir de motor do ônibus.
Esquisito, mas naquele momento tomou-me uma sensação de lamúria por tamanho vácuo de ruídos humanos... De alguma maneira, aquele dia mudo levou-me a sentir o homem afastado de si mesmo, pouco comunicativo, isolado em bolhas particulares, doente.
Mas talvez seja só impressão minha.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
sábado, 21 de agosto de 2010
Lusco-fusco e sole-primo
Sim, escrevo coisas sem sentido, mas somente agora e depois de tão longo tempo dou-me o luxo de sonhar e suspirar esperança. Sinto, insuportávelmente, que este blog sou eu, e que este espaço tornou-se os meus próprios ouvidos e que aqui fico a regougar sobre mim, eu, e mim mesma. Mas isto passa, pretendo que logo, postarei mais sobre quando conseguir uma trégua com meus demônios. Vamos à postagem:
Tem sido doloroso, como são naturalmente os partos. Já era hora de abortar a tênia de tristeza que me absorvia as forças, e construir uma nova essência. Encerrada aqui a sessão de lástimas e silêncio-nênia.
Viver também está se tornando um compromisso de reconhecimento com aquelas que têm, juntamente comigo, dado luz a uma nova existência. Existência não vazia como a de outrora, que meia-morta meia-doentia apenas engolia as horas. Existência ainda incógnita, mas ansiosamente desejada como o primeiro contato com as feições do filho.
Compromisso, contrariando a definição semântica do termo, não foi empregado como obrigação ou contrato, mas como motivo. Como a força extra, como impulso aos primeiros passos.
Depois de escritas as primeiras linhas, agora talvez contradizendo-me, talvez mais do que parto, seja este momento um aborto. Seria mais uma escolha, um ser ou não ser. Expulsão, não tão espontânea, de uma não tão prematura cria, feita de vazio e decadência, que se alimenta da minha vontade e não deixa crescer a outra, que é vida. Haveria de ser duro mesmo arrancar, arrebatar, extrair este cancêr que afinal, é pelo que me conheço. Mas aguardo a ira solar cortar a manta negra desta noite, e engolir me com o anil do céu. Pra que morra o cancêr, e viva alguém que nem lembro mais quem é, mas que é viva.
Não sei se o otimismo que emanou daquelas pílulas realmente se deve a sua composição química, e nem se a autora que hoje escreve é dele títere, porém quero dizer-me, quero crer-me, agora forte.(Evitando negativismo - foi-me recomendado)
Tem sido doloroso, como são naturalmente os partos. Já era hora de abortar a tênia de tristeza que me absorvia as forças, e construir uma nova essência. Encerrada aqui a sessão de lástimas e silêncio-nênia.
Viver também está se tornando um compromisso de reconhecimento com aquelas que têm, juntamente comigo, dado luz a uma nova existência. Existência não vazia como a de outrora, que meia-morta meia-doentia apenas engolia as horas. Existência ainda incógnita, mas ansiosamente desejada como o primeiro contato com as feições do filho.
Compromisso, contrariando a definição semântica do termo, não foi empregado como obrigação ou contrato, mas como motivo. Como a força extra, como impulso aos primeiros passos.
Depois de escritas as primeiras linhas, agora talvez contradizendo-me, talvez mais do que parto, seja este momento um aborto. Seria mais uma escolha, um ser ou não ser. Expulsão, não tão espontânea, de uma não tão prematura cria, feita de vazio e decadência, que se alimenta da minha vontade e não deixa crescer a outra, que é vida. Haveria de ser duro mesmo arrancar, arrebatar, extrair este cancêr que afinal, é pelo que me conheço. Mas aguardo a ira solar cortar a manta negra desta noite, e engolir me com o anil do céu. Pra que morra o cancêr, e viva alguém que nem lembro mais quem é, mas que é viva.
Não sei se o otimismo que emanou daquelas pílulas realmente se deve a sua composição química, e nem se a autora que hoje escreve é dele títere, porém quero dizer-me, quero crer-me, agora forte.(Evitando negativismo - foi-me recomendado)
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Li, gostei e postei
O Objectivo da Arte não é Ser Compreensível 
Toda a arte é expressão de qualquer fenómeno psíquico. A arte, portanto, consiste na adequação, tão exacta quanto caiba na competência artística do fautor, da expressão à cousa que quer exprimir. De onde se deduz que todos os estilos são admissíveis, e que não há estilo simples nem complexo, nem estilo estranho nem vulgar.
Há ideias vulgares e ideias elevadas, há sensações simples e sensações complexas; e há criaturas que só têm ideias vulgares, e criaturas que muitas vezes têm ideias elevadas. Conforme a ideia, o estilo, a expressão. Não há para a arte critério exterior. O fim da arte não é ser compreensível, porque a arte não é a propaganda política ou imoral.
Fernando Pessoa.

Toda a arte é expressão de qualquer fenómeno psíquico. A arte, portanto, consiste na adequação, tão exacta quanto caiba na competência artística do fautor, da expressão à cousa que quer exprimir. De onde se deduz que todos os estilos são admissíveis, e que não há estilo simples nem complexo, nem estilo estranho nem vulgar.
Há ideias vulgares e ideias elevadas, há sensações simples e sensações complexas; e há criaturas que só têm ideias vulgares, e criaturas que muitas vezes têm ideias elevadas. Conforme a ideia, o estilo, a expressão. Não há para a arte critério exterior. O fim da arte não é ser compreensível, porque a arte não é a propaganda política ou imoral.
Fernando Pessoa.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Sonolenta
Se eu fosse borboleta, partiria em minhas asas de lírio, a liquefazer-me sob o azul ardente da tarde.
Mas sou rata, e aqui fico estática a roer as próprias fezes, num cantinho escuro de despensa de padaria.
Talvez seja sina, o faço desde que envenenou-me um beijo acre da janual senhora Vida. Desde que esta perversa deixou-me no couro um verme, que a tudo devorou, tornou me rara e rarefeita. Arrotar toda a quase-inexistente-quintessência que existe... Eu não sinto sono às 22:00h, mas estou quase dormindo.
Mas sou rata, e aqui fico estática a roer as próprias fezes, num cantinho escuro de despensa de padaria.
Talvez seja sina, o faço desde que envenenou-me um beijo acre da janual senhora Vida. Desde que esta perversa deixou-me no couro um verme, que a tudo devorou, tornou me rara e rarefeita. Arrotar toda a quase-inexistente-quintessência que existe... Eu não sinto sono às 22:00h, mas estou quase dormindo.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
sábado, 7 de agosto de 2010
Abreviando a Carta para a Sensei - I
Percebi que, mesmo tentando ser breve, escrevi um livro sobre o evento de hoje. rsrsrs
E por isso, caso esteja sem paciência para ler aqueles milhares de detalhes, sobre os quais eu poderia passar eras escrevendo hushhsuhs, deixo aqui uma sintese do que realmente quero dizer-te, Sensei:
Obrigada, pelo carinho. Obrigada, por agora eu poder sentir você ainda mais perto do que você já está sempre, no meu pensamento. :')
Ah, e teremos a Carta para Sensei - II, que eu vou me esforçar para fazer mais concisa que a primeira, e que será enviada, muito em breve, mas da maneira tradicional.
E por isso, caso esteja sem paciência para ler aqueles milhares de detalhes, sobre os quais eu poderia passar eras escrevendo hushhsuhs, deixo aqui uma sintese do que realmente quero dizer-te, Sensei:
Obrigada, pelo carinho. Obrigada, por agora eu poder sentir você ainda mais perto do que você já está sempre, no meu pensamento. :')
Ah, e teremos a Carta para Sensei - II, que eu vou me esforçar para fazer mais concisa que a primeira, e que será enviada, muito em breve, mas da maneira tradicional.
Carta para a Sensei - I
Querida Sensei,
Hoje recebi o melhor presente de aniversário de minha vida, e lhe escrevo para agradecer e dizer tudo aquilo que não consegui transmitir quando o tentei fazer no cara-a-cara, ou melhor, no voz-a-voz. Já percebeste que não sou boa em conversar ao telefone, mas tenho uma boa desculpa para isso: sempre que falo com você, me toma uma emoção que embola minha lingua e meus pensamentos.
Então, a minha tão esperada e estimada caixa chegou e me deixou abobada pelo resto do dia. Estava a cortar cebolas para um vinagrete, que acompanharia o almoço de hoje, e a derramar algumas lágrimas por esse motivo, quando me interrompeu o árduo trabalho o carro do Sedex. Não sei se vi demais, mas senti que o moço da entrega me recebeu com um sorriso, intuitivo, uma previsão de bom acontecimento, de coisa especial. Pessoa, saí da cozinha mais trêmula que gelatina em terremoto, agarrei me àquela caixa no portão e rabisquei uma assinatura a la sofredora de mal de Parkinson. Puxa vida, ainda não consigo descrever o que senti quando tive pela primeira vez em minhas mãos algo já teria passado pelas suas.
Sei que as lágrimas, de cebola, encontraram um motivo muito mais justo para existir e percorrer minha cara enrugada. Eu até tentei escondê-las do pessoal aqui em casa, mas no fundo mesmo, eu não queria, eu queria mesmo era continuar naquele momento tão bacana. Pior, aliás, melhor foi quando abri, rasguei vorazmente, desesperada, ansiosa aquela caixa e vi lá dentro aquele cd, aquela embalagem da Ri Happy, aquele cartãozinho e o saquinho vermelho.
Nick Drake, o cd do Nick Drake! O cd que era seu! O cara incrível que me apresentou você... Tasquei no toca disco, e fui rasgar o outro pacote, que eu já tinha apalpado e sentido toda a fofura. Poxa vida, aquele bichinho felpudo, azul e lindo me lembrou o melocoton, que eu adorava na infância, e agora está acomodado na minha cabeceira de cama, que é vítima de uma de minhas excentricidades, e mantém a mesma arrumação há alguns anos. Agora ela manterá uma nova arrumação por todos os anos que virão, ornamentada com meu bichinho azul que pretendo nomear de avatar.
Li o belo e gracioso cartãzinho, e fui para a parte que mais me avassalou. Desamarrei a fitinha amarela do saquinho, e encontrei as coisas mais preciosas que já ganhei. O broche, a chave, a pulseira, a carta e a foto, que a principio pensei ser um apontador. Com todas aquelas coisinhas, pude sentir sua energia, de alguma maneira estranha aquilo me chegou familiar, e tão doce, e tão encantador... Como respirar uma brisa boa... E eu que antes me sentia afobada, como se tivesse andando na roda gigante, agora estava muito enternecida, tocada e serena, tomada de alegria. Comecei a ler a cartinha, inclusive tenho que comentar que achei lindíssima sua caligrafia, e vi o que você foi escrevendo sobre cada coisinha: sobre o broche, que te faz lembrar de mim; sobre
a chavinha, sobre a pulseira que eu já estou usando, e finalmente sobre a foto. A princípio eu não estava entendendo, e cheguei a me perguntar: "Será que eu perdi a foto? Será que ela esqueceu?". Então fui analisar aquilo que para mim era um "apontador", e depois de girá-lo um pouquinho e abrir a tampinha, descobri a lente na base menor. Olhei, mas estava escuro, foi quando mirei para a fresta de luz que raiava da janela e vi aquele anjo com a bonequinha. Sim, aí sim, você me pegou de verdade, Sensei. Obrigada por me mandar esse presente tão especial, obrigada por estar agora um poquinho mais perto fisicamente de mim. :')
Hoje recebi o melhor presente de aniversário de minha vida, e lhe escrevo para agradecer e dizer tudo aquilo que não consegui transmitir quando o tentei fazer no cara-a-cara, ou melhor, no voz-a-voz. Já percebeste que não sou boa em conversar ao telefone, mas tenho uma boa desculpa para isso: sempre que falo com você, me toma uma emoção que embola minha lingua e meus pensamentos.
Então, a minha tão esperada e estimada caixa chegou e me deixou abobada pelo resto do dia. Estava a cortar cebolas para um vinagrete, que acompanharia o almoço de hoje, e a derramar algumas lágrimas por esse motivo, quando me interrompeu o árduo trabalho o carro do Sedex. Não sei se vi demais, mas senti que o moço da entrega me recebeu com um sorriso, intuitivo, uma previsão de bom acontecimento, de coisa especial. Pessoa, saí da cozinha mais trêmula que gelatina em terremoto, agarrei me àquela caixa no portão e rabisquei uma assinatura a la sofredora de mal de Parkinson. Puxa vida, ainda não consigo descrever o que senti quando tive pela primeira vez em minhas mãos algo já teria passado pelas suas.
Sei que as lágrimas, de cebola, encontraram um motivo muito mais justo para existir e percorrer minha cara enrugada. Eu até tentei escondê-las do pessoal aqui em casa, mas no fundo mesmo, eu não queria, eu queria mesmo era continuar naquele momento tão bacana. Pior, aliás, melhor foi quando abri, rasguei vorazmente, desesperada, ansiosa aquela caixa e vi lá dentro aquele cd, aquela embalagem da Ri Happy, aquele cartãozinho e o saquinho vermelho.
Nick Drake, o cd do Nick Drake! O cd que era seu! O cara incrível que me apresentou você... Tasquei no toca disco, e fui rasgar o outro pacote, que eu já tinha apalpado e sentido toda a fofura. Poxa vida, aquele bichinho felpudo, azul e lindo me lembrou o melocoton, que eu adorava na infância, e agora está acomodado na minha cabeceira de cama, que é vítima de uma de minhas excentricidades, e mantém a mesma arrumação há alguns anos. Agora ela manterá uma nova arrumação por todos os anos que virão, ornamentada com meu bichinho azul que pretendo nomear de avatar.
Li o belo e gracioso cartãzinho, e fui para a parte que mais me avassalou. Desamarrei a fitinha amarela do saquinho, e encontrei as coisas mais preciosas que já ganhei. O broche, a chave, a pulseira, a carta e a foto, que a principio pensei ser um apontador. Com todas aquelas coisinhas, pude sentir sua energia, de alguma maneira estranha aquilo me chegou familiar, e tão doce, e tão encantador... Como respirar uma brisa boa... E eu que antes me sentia afobada, como se tivesse andando na roda gigante, agora estava muito enternecida, tocada e serena, tomada de alegria. Comecei a ler a cartinha, inclusive tenho que comentar que achei lindíssima sua caligrafia, e vi o que você foi escrevendo sobre cada coisinha: sobre o broche, que te faz lembrar de mim; sobre
a chavinha, sobre a pulseira que eu já estou usando, e finalmente sobre a foto. A princípio eu não estava entendendo, e cheguei a me perguntar: "Será que eu perdi a foto? Será que ela esqueceu?". Então fui analisar aquilo que para mim era um "apontador", e depois de girá-lo um pouquinho e abrir a tampinha, descobri a lente na base menor. Olhei, mas estava escuro, foi quando mirei para a fresta de luz que raiava da janela e vi aquele anjo com a bonequinha. Sim, aí sim, você me pegou de verdade, Sensei. Obrigada por me mandar esse presente tão especial, obrigada por estar agora um poquinho mais perto fisicamente de mim. :')
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