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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Um Conto


Naquela Época Tínhamos Um Gato
Nelson de Oliveira


Mas não o suportávamos. Ele cagava por toda parte, fazia ruídos a noite toda, esparramava o lixo na calçada e arranhava as almofadas do sofá. Por isso, nos livramos dele e compramos um cão.
Era um fox-terrier branco e saudável.
No primeiro dia em que o vimos, ele nos pareceu tão belo e atraente, tão orgânico, tão cheio de si e de promessas que imediatamente toda a família, em silêncio — quase um pacto de sangue —, jurou tolerar, nele, tudo aquilo que não havíamos tolerado no gato, todos os seus possíveis excessos, manias e atavismos. Mais do que isso, nós, a partir de então, passamos a desejá-lo exatamente assim: nu, sem coleira nem regras.
Nós o amávamos e o alimentávamos. Às vezes nós o colocávamos numa grande caixa de papelão e o levávamos conosco, naqueles deliciosos passeios pelo campo que nossa família costumava organizar nos fins de semana, a cada verão. Também lhe dávamos banho todas as segundas-feiras, religiosamente, após intermináveis sessões profiláticas sentados ao sol, quando procurávamos e eliminávamos as eventuais pulgas do seu pêlo, conforme instruções do veterinário.
Fazíamos tudo isso, mas, mesmo assim, ele se recusava a nos amar, a nos seguir pelas ruas do nosso bairro, a uivar para a lua em noites de lua cheia, a perseguir os cães menores e a rosnar diante de visitas e estranhos, como todo cão costuma fazer.
Seu nome era Sansão e seus olhos eram suaves e, ao mesmo tempo, ariscos, como os de um patriarça chinês.
Jamais ouvimos o seu latido durante todo o tempo em que viveu conosco. Jamais o ouvimos arrastar meias e chinelos pelas escadas, ou chafurdar na terra úmida do jardim após uma noite de chuva, ou urinar nos cantos da cozinha, ou derrubar os vasos e quebrar potes de porcelana também, coisas tão corriqueiras na vida de qualquer cão.
Pior do que isso. Além de um comportamento pouco ortodoxo, Sansão ainda possuía o inconveniente hábito de perscrutar nossas almas.
Frequentemente, durante uma conversa reservada com meu pai, ou com qualquer outro membro mais próximo da família, imaginando estarmos a sós, a portas trancadas, de repente pressentíamos um observador inoportuno analisando nossos sentimentos, nossos segredos. Bastava olhar sobre os nossos ombros para descobrir a acanhada presença de um cão, meio oculto na sombra de uma estante, feliz por participar de um acontecimento tão íntimo, tão particular.
Era como se ele possuísse o dom de transpor portas e paredes, apenas com a força do pensamento. Ele existia, era sólido e palpável, mas os olhos apresentavam uma coloração terrivelmente alucinada e transparente, como se neles, mergulhado em suas pupilas quase pré-históricas, estivesse presente, muito bem aprisionado, um reflexo claro e detalhado do dilúvio universal — a catástrofe da vida, borbulhando a mais de cem graus centígrados.
Mas isso não era fácil de ser percebido, não.
Poucos de nossa família possuíam paciência e desprendimento suficientes para chegar a essa incrível porém simples constatação. Apenas quando olhávamos fixamente dentro de seus olhos, sem piscar, sem desviar um milímetro sequer do nosso ponto de interesse, por horas a fio, é que percebíamos neles o início dos tempos, a formação do céu e da terra. Durante essa procura, os pensamentos iam fluindo livremente e, ao mesmo tempo, apaziguando-se. O despertar sobrevinha, ao que parece, após uma certa fadiga do pensamento, de um desamparo finalmente aceito e assumido pelas nossas mentes. Então, tudo se iluminava e o nosso cão deixava de ser um acessório, uma parte indesejada da mobília.
Finalmente percebíamos a sua real presença entre nós. Era a verdadeira revelação da sua essência, uma substância abstrata e dinâmica. Nela, nos perdíamos e nos deleitávamos. Por ela valia a pena suportar tudo o mais, a ausência de um latido nas manhãs de domingo, de um chinelo arrastado através da sala, de uma almofada cheia de incisões, de um passeio pelas ruas. Todavia, bastava nos distrairmos só por um segundo e — zás! — imediatamente tudo se desvanecia diante dos nossos olhos. As sagradas escrituras e a nossa completa compreensão delas eram substituídas, no ato, pelas patéticas feições de um cão.
Ele, no mesmo instante, dava meia-volta e se recolhia em sua cesta acolchoada, sem ao menos se despedir, sem sequer, por meio de um aceno com as orelhas, com o rabo, dizer, sei o que estão sentindo, sinto o que vcês sentem, somos irmãos na dor e no conhecimento, na ilusão e no despertar, deixando, em cada um de nós, a desagradável impressão de que, talvez, um periquito teria sido bem melhor.

Anabela,

Você esqueceu do meu blog.
Lembre-se do meu blog, sua desnaturada.

Rendo-me

Furta-me os olhos lassos, o horizonte escarlate. Um suspiro puxa do meu âmago meu sentimento mais etéreo, e o lança no ar corrente.
É nesse breve momento que posso sentir a manifestação mais genuína de minha relação com a natureza: liberdade submissa.
Deleito-me agora com o ônus da vida, já que é isto o que me resta.

sábado, 9 de outubro de 2010

Lou sobre a vida

"Claro, como se ama um amigo
Eu te amo, vida enigmática –
Que me tenhas feito exultar ou chorar,
Que me tenhas trazido felicidade ou sofrimento,
Amo-te com toda a tua crueldade,
E se deves me aniquilar,
Eu me arrancarei de teus braços
Como alguém se arranca do seio de um amigo.
Com todas as minhas forças te aperto!
Que tuas chamas me devorem,
No fogo do combate, permite-me
Sondar mais longe teu mistério.
Ser, pensar durante milênios!
Encerra-me em teus dois braços:
Se não tens mais alegria a me ofertar
Pois bem – restam-me teus tormentos. "

Lou Andreas-Salomé

Liberta

Ah, o amor liberta.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Soneto do Revolto

A cólera inflama a chaga,
O temor putrefaz o júbilo.
Retalhada, agonizante a alma vaga,
Engasgada com o acre do ciúme.

O ranger dos dentes ocre,
Seu ruído absoluto.
E, como em fogo, arde a ira,
Seu demônio mais arguto.

Mil floretes enterrados
Nos teus escuros mais profundos,
Rutilam os teus olhos rubicundos.

Mil serpentes agrilhoadas
Nas rígidas mãos cerradas,
Revolvem o teu ser mais nauseabundo.

Prepare sua adaga

O duelo vai começar.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Trágico amor

Homens são apenas homens. E o golpe mais traiçoeiro e inclemente da torrente impetuosa do amor consiste em roubar-nos esta rudimentar consciência. É a ambição o que há de mais funesto e de mais pernicioso na suprema turbulência. A avidez de uma alma é um punho voltado contra a própria face, é suicídio passional, é o princípio de toda a morte.
De fato, ao amor, só restam duas coisas: as decepções e o perdão ébrio.
O preço da plenitude é a independência.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Borboleta

"(...)
Levada na cor
Recorta do ar
O cheiro da flor
Ruído do mar
Mas foge de mim
Na borda da mesa
Ou pousa no prato
De louça chinesa

Farfalla ligeira(...)"

Humildes Constatações Auto-Filosóficas

Os passos irresolutos encontram o vidro na areia. E cá estamos nós, de novo, desalentados a percorrer a imensidão de uma orla imaginária. As nuances do ocaso se espreguiçam sobre nossos derreados questionamentos... Que razão misteriosa há para esse imã que empurra nossa débil existência à ociosidade melancólica? Que razão há para este incessante conflito? Que razão obscura há para tantas incansáveis voltas em torno de uma mesma e eterna impreenchível lacuna?
Como o marisco a mercê da maré, ora revolta ora serena, está o homem no fluxo da vida, sempre atado à sua impotência fundamental.
...
Chuá... Chuá... Chuá... [onomatopéia de quinta]
...


Tudo bem, já chega de bancar a filósofa-blasé por hoje. Precisava recuperar o hábito de escrever(porcaria) regularmente.


sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Imersão

A brisa estala em seu corpo fatigado pela labuta diária de viver e o sorriso falciforme da noite se projeta nas vidraças de seu modesto cômodo. Um feixe prateado se derrama sobre seus olhos. Aqueles olhos, indecifráveis... Ainda lhe atormentaria aquela persistente e imensurável sede de ceifar as dualidades da existência?
Neste momento, repousa seus indistintos olhos no lume sutil que preenche o ambiente... Raspando as escaras da alma.