Um sorriso particular, cor de prata reluzente, um furo no escurão. Sobrevoa toda a gente e
descansa na poça do chão. Deita o meu olho de cão, na imensidão índigo do céu, esconde o sol ardente. E as figurantes, pedacinhos de papel de bombom, dançam paradas ao som do vento. É de açúcar... ou é de sal, ou de giz, ou é só luz em forma de bola. A calma e a solidão em forma de bola. A minha alma, em forma de bola.
sábado, 25 de dezembro de 2010
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Terra
Me deixa dançar
Nas terras nuas desses olhos
Pular a fogueira que arde nua
Nesses olhos
Eu queria tanto repousar
No teu colo nu
Comer ainda cru
Tudo em você
Que me enche a boca d'água
Os olhos d'água
Tocar a sua pele de terra,
Sentir seu cheiro de floresta
E a tua voz
Ah como eu queria...
Nas terras nuas desses olhos
Pular a fogueira que arde nua
Nesses olhos
Eu queria tanto repousar
No teu colo nu
Comer ainda cru
Tudo em você
Que me enche a boca d'água
Os olhos d'água
Tocar a sua pele de terra,
Sentir seu cheiro de floresta
E a tua voz
Ah como eu queria...
sábado, 11 de dezembro de 2010
Estrelinha
Desponta no couro rosa do crepúsculo,
A primeira, pontual.
Repousa serena no colo da noite.
Boia no petróleo da noite.
E quando a noite quer parir a aurora,
No meio das nuvens nacaradas
A pequena estrela se disfarça,
Eu espero sua graça
Amanhã.
Estrelinha, estrelinha
Estrala no céu azul
Estrelinha, estrelinha
Durma bem, estrela do sul
Bronzeia o meu dedo estendido,
Desejoso de fogo.
Perturba minha paciência.
Eu, mesmo tão ávido,
Me contento em contemplar,
Contemplá-la... me completa.
A primeira, pontual.
Repousa serena no colo da noite.
Boia no petróleo da noite.
E quando a noite quer parir a aurora,
No meio das nuvens nacaradas
A pequena estrela se disfarça,
Eu espero sua graça
Amanhã.
Estrelinha, estrelinha
Estrala no céu azul
Estrelinha, estrelinha
Durma bem, estrela do sul
Bronzeia o meu dedo estendido,
Desejoso de fogo.
Perturba minha paciência.
Eu, mesmo tão ávido,
Me contento em contemplar,
Contemplá-la... me completa.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Cântico MCXXII
"Como na era do deus-sol
lembranças de um piano descendente de tempos
em que desertos circundavam estas terras.
Palavras vestiam mantos de ministros
e coroas de princesas aladas na escuridão do tempo
o tempo da juventude sem futuro e sem passado. Pois
o jovem não tem planos, apenas moedas estrangeiras
para adoração de formas esverdeadas nas cédulas caducas
mas devera modernas, que escondem em suas
calças largas roubadas de seus pais de bigodes.
A mente nunca esteve tão clara e decidiu tão grandes pensamentos
quanto quando tínhamos 16 anos. E as folhas que esconderas nos livros
ainda as guardo, e não lamento nada, nenhum poema,
nenhuma lágrima, nenhuma noite sóbria de medos e ternuras entre selos.
Assim fecho o livro de cantigas e berceuses, entre cravos e amarílis
sem ainda saber o fim do livro e sem protagonistas.
Mas entre acordes menores e blue notes
nas estrelas mal nascidas através da janela
numa enorme caixa de papelão, canto a luz
e a cor que podemos ver, sempre e sempre, e que não envelhecerá."
(Cecília S.)
lembranças de um piano descendente de tempos
em que desertos circundavam estas terras.
Palavras vestiam mantos de ministros
e coroas de princesas aladas na escuridão do tempo
o tempo da juventude sem futuro e sem passado. Pois
o jovem não tem planos, apenas moedas estrangeiras
para adoração de formas esverdeadas nas cédulas caducas
mas devera modernas, que escondem em suas
calças largas roubadas de seus pais de bigodes.
A mente nunca esteve tão clara e decidiu tão grandes pensamentos
quanto quando tínhamos 16 anos. E as folhas que esconderas nos livros
ainda as guardo, e não lamento nada, nenhum poema,
nenhuma lágrima, nenhuma noite sóbria de medos e ternuras entre selos.
Assim fecho o livro de cantigas e berceuses, entre cravos e amarílis
sem ainda saber o fim do livro e sem protagonistas.
Mas entre acordes menores e blue notes
nas estrelas mal nascidas através da janela
numa enorme caixa de papelão, canto a luz
e a cor que podemos ver, sempre e sempre, e que não envelhecerá."
(Cecília S.)
domingo, 5 de dezembro de 2010
Quero-te bem
É uma ânsia que inflama, estorrica. Minha pobre alma, tão rica jamais seria, se não fosse tua.
É essa ânsia que incandesce, que perturba. A minha calma, tão distante não estaria, se não fosse tua presença. É burlesco, mais que tão sublime. É pitoresco, mais humano que divino. É carne, desejo fresco. É outono que me despe. É a música que me conduz, à tua cama. Como quero a essa chama,
quero te bem, quero-te bem mais do que poderia. Quero-te bem aqui.
É essa ânsia que incandesce, que perturba. A minha calma, tão distante não estaria, se não fosse tua presença. É burlesco, mais que tão sublime. É pitoresco, mais humano que divino. É carne, desejo fresco. É outono que me despe. É a música que me conduz, à tua cama. Como quero a essa chama,
quero te bem, quero-te bem mais do que poderia. Quero-te bem aqui.
sábado, 4 de dezembro de 2010
Ninguém Nunca Amou Completamente
Vou deitar-te na eternidade, que é esse o teu lugar, é esse, é esse. E agora só tenho que te amar tudo de ti, não deixar nada de fora. Porque, sabê-lo-ás? Nunca ninguém amou completamente, houve sempre uma forma de amar fragmentária, parcial. Amou-se sempre em função de uma fracção do amor como se usou um vestuário segundo a moda, desde o calção ou o penante de plumas. Vou-te amar como Deus. Não, não. Deus não sente prazer nem movimento progressivo até ao prazer, coitado, é tão infeliz. Vou-te amar como um homem desde que os há, desde o tempo das cavernas até hoje e com um pequeno suplemento que é só meu.Vergílio Ferreira, in "Em Nome da Terra"
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Veneno Vital
Ódio boldo,
retorce até a última víscera.
No punho, as unhas cravadas retalham a palma.
Experimentada a mais amarga e entorpecente sensação que pode ser experimentada. Experimentada a mais profunda ofensa: ver outrém ferir o ser amado.
Tenho uma serra-elétrica no meio da cara, uma faca de serra no meio do peito. Como ter milhões de adagas ao dispor, o poder do ódio, intocável e soberbo.
retorce até a última víscera.
No punho, as unhas cravadas retalham a palma.
Experimentada a mais amarga e entorpecente sensação que pode ser experimentada. Experimentada a mais profunda ofensa: ver outrém ferir o ser amado.
Tenho uma serra-elétrica no meio da cara, uma faca de serra no meio do peito. Como ter milhões de adagas ao dispor, o poder do ódio, intocável e soberbo.
domingo, 28 de novembro de 2010
Ciúme
"O Ciúme, que irritante! Ele é uma expressão da avidez da propriedade. Ou da petulância do domínio. Ou do gosto pela escravização." Virgílio Ferreira
Saudade
De súbito me assalta o peito uma dor, um aperto. A chuva lambe o vitrô, espelha meu rosto embotado. Onde mais eu teria achado tanta solidão, se não na mais eterna e profunda das saudades?
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
O Curso
Água serpenteia no riacho
Leva o sol na pele cristalina
Lança tua pureza na retina
Carrega os meus olhos rio abaixo
Rebela os seixos na profundeza
Alimenta os lírios na beirinha
Leva uma folha na correnteza
Lava essa alma que é a minha.
Lava esse meu rosto moribundo
Que não é dono de muita beleza,
Faz que veio fazer neste mundo,
Sem repouso e sem certezas,
Que eu também o farei.
Leva o sol na pele cristalina
Lança tua pureza na retina
Carrega os meus olhos rio abaixo
Rebela os seixos na profundeza
Alimenta os lírios na beirinha
Leva uma folha na correnteza
Lava essa alma que é a minha.
Lava esse meu rosto moribundo
Que não é dono de muita beleza,
Faz que veio fazer neste mundo,
Sem repouso e sem certezas,
Que eu também o farei.
sábado, 20 de novembro de 2010
Pof
A face rotunda da lua colada no vidro do copo,
Leite quente ao som de Gino Paoli...
Já preparo meu couro de cavalo de carroceiro pro próximo galope, e a garganta pro próximo gole.
Leite quente ao som de Gino Paoli...
Já preparo meu couro de cavalo de carroceiro pro próximo galope, e a garganta pro próximo gole.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Vai Eu
Na trilha do corcel inculto
Na curva silvada do vento
No olho do mar tormento
Na faca cuspida do insulto
Nos pés macios do tempo
Miúdos, volatéis, alados
No susto das borboletas
Que decolam dos gramados.
É lá que vou eu, nos repentes,
Ser brio e breu.
É lá que vou eu, fogo latente,
Ser menos meu.
É lá que eu vou, com meus pés sujos,
Ser mais amado.
Como chuva fina eu fujo,
Vou correndo deitado.
Na curva silvada do vento
No olho do mar tormento
Na faca cuspida do insulto
Nos pés macios do tempo
Miúdos, volatéis, alados
No susto das borboletas
Que decolam dos gramados.
É lá que vou eu, nos repentes,
Ser brio e breu.
É lá que vou eu, fogo latente,
Ser menos meu.
É lá que eu vou, com meus pés sujos,
Ser mais amado.
Como chuva fina eu fujo,
Vou correndo deitado.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Supremo extâse
E então, quando este dia chegar,
Cairão os meus braços, e as minhas pernas, e a minha voz
E como leva o vento as folhas de uma árvore perene,
Levarás de mim um naco da alma e um infindo, estreme, sorriso.
Cairão os meus braços, e as minhas pernas, e a minha voz
E como leva o vento as folhas de uma árvore perene,
Levarás de mim um naco da alma e um infindo, estreme, sorriso.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Um Conto
Naquela Época Tínhamos Um Gato
Nelson de Oliveira
Nelson de Oliveira
Mas não o suportávamos. Ele cagava por toda parte, fazia ruídos a noite toda, esparramava o lixo na calçada e arranhava as almofadas do sofá. Por isso, nos livramos dele e compramos um cão.
Era um fox-terrier branco e saudável.
No primeiro dia em que o vimos, ele nos pareceu tão belo e atraente, tão orgânico, tão cheio de si e de promessas que imediatamente toda a família, em silêncio — quase um pacto de sangue —, jurou tolerar, nele, tudo aquilo que não havíamos tolerado no gato, todos os seus possíveis excessos, manias e atavismos. Mais do que isso, nós, a partir de então, passamos a desejá-lo exatamente assim: nu, sem coleira nem regras.
Nós o amávamos e o alimentávamos. Às vezes nós o colocávamos numa grande caixa de papelão e o levávamos conosco, naqueles deliciosos passeios pelo campo que nossa família costumava organizar nos fins de semana, a cada verão. Também lhe dávamos banho todas as segundas-feiras, religiosamente, após intermináveis sessões profiláticas sentados ao sol, quando procurávamos e eliminávamos as eventuais pulgas do seu pêlo, conforme instruções do veterinário.
Fazíamos tudo isso, mas, mesmo assim, ele se recusava a nos amar, a nos seguir pelas ruas do nosso bairro, a uivar para a lua em noites de lua cheia, a perseguir os cães menores e a rosnar diante de visitas e estranhos, como todo cão costuma fazer.
Seu nome era Sansão e seus olhos eram suaves e, ao mesmo tempo, ariscos, como os de um patriarça chinês.
Seu nome era Sansão e seus olhos eram suaves e, ao mesmo tempo, ariscos, como os de um patriarça chinês.
Jamais ouvimos o seu latido durante todo o tempo em que viveu conosco. Jamais o ouvimos arrastar meias e chinelos pelas escadas, ou chafurdar na terra úmida do jardim após uma noite de chuva, ou urinar nos cantos da cozinha, ou derrubar os vasos e quebrar potes de porcelana também, coisas tão corriqueiras na vida de qualquer cão.
Pior do que isso. Além de um comportamento pouco ortodoxo, Sansão ainda possuía o inconveniente hábito de perscrutar nossas almas.
Frequentemente, durante uma conversa reservada com meu pai, ou com qualquer outro membro mais próximo da família, imaginando estarmos a sós, a portas trancadas, de repente pressentíamos um observador inoportuno analisando nossos sentimentos, nossos segredos. Bastava olhar sobre os nossos ombros para descobrir a acanhada presença de um cão, meio oculto na sombra de uma estante, feliz por participar de um acontecimento tão íntimo, tão particular.
Era como se ele possuísse o dom de transpor portas e paredes, apenas com a força do pensamento. Ele existia, era sólido e palpável, mas os olhos apresentavam uma coloração terrivelmente alucinada e transparente, como se neles, mergulhado em suas pupilas quase pré-históricas, estivesse presente, muito bem aprisionado, um reflexo claro e detalhado do dilúvio universal — a catástrofe da vida, borbulhando a mais de cem graus centígrados.
Mas isso não era fácil de ser percebido, não.
Poucos de nossa família possuíam paciência e desprendimento suficientes para chegar a essa incrível porém simples constatação. Apenas quando olhávamos fixamente dentro de seus olhos, sem piscar, sem desviar um milímetro sequer do nosso ponto de interesse, por horas a fio, é que percebíamos neles o início dos tempos, a formação do céu e da terra. Durante essa procura, os pensamentos iam fluindo livremente e, ao mesmo tempo, apaziguando-se. O despertar sobrevinha, ao que parece, após uma certa fadiga do pensamento, de um desamparo finalmente aceito e assumido pelas nossas mentes. Então, tudo se iluminava e o nosso cão deixava de ser um acessório, uma parte indesejada da mobília.
Finalmente percebíamos a sua real presença entre nós. Era a verdadeira revelação da sua essência, uma substância abstrata e dinâmica. Nela, nos perdíamos e nos deleitávamos. Por ela valia a pena suportar tudo o mais, a ausência de um latido nas manhãs de domingo, de um chinelo arrastado através da sala, de uma almofada cheia de incisões, de um passeio pelas ruas. Todavia, bastava nos distrairmos só por um segundo e — zás! — imediatamente tudo se desvanecia diante dos nossos olhos. As sagradas escrituras e a nossa completa compreensão delas eram substituídas, no ato, pelas patéticas feições de um cão.
Ele, no mesmo instante, dava meia-volta e se recolhia em sua cesta acolchoada, sem ao menos se despedir, sem sequer, por meio de um aceno com as orelhas, com o rabo, dizer, sei o que estão sentindo, sinto o que vcês sentem, somos irmãos na dor e no conhecimento, na ilusão e no despertar, deixando, em cada um de nós, a desagradável impressão de que, talvez, um periquito teria sido bem melhor.
Rendo-me
Furta-me os olhos lassos, o horizonte escarlate. Um suspiro puxa do meu âmago meu sentimento mais etéreo, e o lança no ar corrente.
É nesse breve momento que posso sentir a manifestação mais genuína de minha relação com a natureza: liberdade submissa.
Deleito-me agora com o ônus da vida, já que é isto o que me resta.
É nesse breve momento que posso sentir a manifestação mais genuína de minha relação com a natureza: liberdade submissa.
Deleito-me agora com o ônus da vida, já que é isto o que me resta.
sábado, 9 de outubro de 2010
Lou sobre a vida
"Claro, como se ama um amigo
Eu te amo, vida enigmática –
Que me tenhas feito exultar ou chorar,
Que me tenhas trazido felicidade ou sofrimento,
Amo-te com toda a tua crueldade,
E se deves me aniquilar,
Eu me arrancarei de teus braços
Como alguém se arranca do seio de um amigo.
Com todas as minhas forças te aperto!
Que tuas chamas me devorem,
No fogo do combate, permite-me
Sondar mais longe teu mistério.
Ser, pensar durante milênios!
Encerra-me em teus dois braços:
Se não tens mais alegria a me ofertar
Pois bem – restam-me teus tormentos. "
Lou Andreas-Salomé
Eu te amo, vida enigmática –
Que me tenhas feito exultar ou chorar,
Que me tenhas trazido felicidade ou sofrimento,
Amo-te com toda a tua crueldade,
E se deves me aniquilar,
Eu me arrancarei de teus braços
Como alguém se arranca do seio de um amigo.
Com todas as minhas forças te aperto!
Que tuas chamas me devorem,
No fogo do combate, permite-me
Sondar mais longe teu mistério.
Ser, pensar durante milênios!
Encerra-me em teus dois braços:
Se não tens mais alegria a me ofertar
Pois bem – restam-me teus tormentos. "
Lou Andreas-Salomé
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Soneto do Revolto
A cólera inflama a chaga,
O temor putrefaz o júbilo.
Retalhada, agonizante a alma vaga,
Engasgada com o acre do ciúme.
O ranger dos dentes ocre,
Seu ruído absoluto.
E, como em fogo, arde a ira,
Seu demônio mais arguto.
Mil floretes enterrados
Nos teus escuros mais profundos,
Rutilam os teus olhos rubicundos.
Mil serpentes agrilhoadas
Nas rígidas mãos cerradas,
Revolvem o teu ser mais nauseabundo.
O temor putrefaz o júbilo.
Retalhada, agonizante a alma vaga,
Engasgada com o acre do ciúme.
O ranger dos dentes ocre,
Seu ruído absoluto.
E, como em fogo, arde a ira,
Seu demônio mais arguto.
Mil floretes enterrados
Nos teus escuros mais profundos,
Rutilam os teus olhos rubicundos.
Mil serpentes agrilhoadas
Nas rígidas mãos cerradas,
Revolvem o teu ser mais nauseabundo.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Trágico amor
Homens são apenas homens. E o golpe mais traiçoeiro e inclemente da torrente impetuosa do amor consiste em roubar-nos esta rudimentar consciência. É a ambição o que há de mais funesto e de mais pernicioso na suprema turbulência. A avidez de uma alma é um punho voltado contra a própria face, é suicídio passional, é o princípio de toda a morte.
De fato, ao amor, só restam duas coisas: as decepções e o perdão ébrio.
O preço da plenitude é a independência.
De fato, ao amor, só restam duas coisas: as decepções e o perdão ébrio.
O preço da plenitude é a independência.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Borboleta
"(...)
Levada na cor
Recorta do ar
O cheiro da flor
Ruído do mar
Mas foge de mim
Na borda da mesa
Ou pousa no prato
De louça chinesa
Farfalla ligeira(...)"
Levada na cor
Recorta do ar
O cheiro da flor
Ruído do mar
Mas foge de mim
Na borda da mesa
Ou pousa no prato
De louça chinesa
Farfalla ligeira(...)"
Humildes Constatações Auto-Filosóficas
Os passos irresolutos encontram o vidro na areia. E cá estamos nós, de novo, desalentados a percorrer a imensidão de uma orla imaginária. As nuances do ocaso se espreguiçam sobre nossos derreados questionamentos... Que razão misteriosa há para esse imã que empurra nossa débil existência à ociosidade melancólica? Que razão há para este incessante conflito? Que razão obscura há para tantas incansáveis voltas em torno de uma mesma e eterna impreenchível lacuna?
Como o marisco a mercê da maré, ora revolta ora serena, está o homem no fluxo da vida, sempre atado à sua impotência fundamental.
...
Chuá... Chuá... Chuá... [onomatopéia de quinta]
...
Tudo bem, já chega de bancar a filósofa-blasé por hoje. Precisava recuperar o hábito de escrever(porcaria) regularmente.
Como o marisco a mercê da maré, ora revolta ora serena, está o homem no fluxo da vida, sempre atado à sua impotência fundamental.
...
Chuá... Chuá... Chuá... [onomatopéia de quinta]
...
Tudo bem, já chega de bancar a filósofa-blasé por hoje. Precisava recuperar o hábito de escrever(porcaria) regularmente.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Imersão
A brisa estala em seu corpo fatigado pela labuta diária de viver e o sorriso falciforme da noite se projeta nas vidraças de seu modesto cômodo. Um feixe prateado se derrama sobre seus olhos. Aqueles olhos, indecifráveis... Ainda lhe atormentaria aquela persistente e imensurável sede de ceifar as dualidades da existência?
Neste momento, repousa seus indistintos olhos no lume sutil que preenche o ambiente... Raspando as escaras da alma.
Neste momento, repousa seus indistintos olhos no lume sutil que preenche o ambiente... Raspando as escaras da alma.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Lar, insípido lar.
Do seu profundo ventre,
Saia e entre
Quantas vezes quiser.
Seja bem vindo, novamente.
O cheiro do limbo ainda lhe é familiar?
Ainda se sustenta num filete?
Onde está seu estilete?
Ainda sabe andar a esmo?
Você ainda é o mesmo?
Seja bem vindo novamente.
Saia e entre
Quantas vezes quiser.
Seja bem vindo, novamente.
O cheiro do limbo ainda lhe é familiar?
Ainda se sustenta num filete?
Onde está seu estilete?
Ainda sabe andar a esmo?
Você ainda é o mesmo?
Seja bem vindo novamente.
sábado, 18 de setembro de 2010
Achado
"Em uma hora, a atriz apresenta uma tradução cênica para o que, aos olhos da escritora, é o real: aqueles instantes de suspensão em que, na surdina e sob um disfarce prosaico (animal, planta ou um cego mascando chiclete), abrindo fendas na modorra da rotina, a vida irrompe _monumental, desconhecida, temerária e onírica."
terça-feira, 14 de setembro de 2010
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Corrosiva
A verdade pungente e mordaz lhe tornaria colérico, colérico demais. Por isso penetra a noite nebulosa, por isso tanta obscuridade.
Não é assim tão piedosa e autruísta criatura... Não teme decepcionar o Sol, teme ver a si no claro. A verdade é que teme a verdade sobre si. Teme é lançar a luz sobre as mais nítidas constatações de sua vileza.
Não é assim tão piedosa e autruísta criatura... Não teme decepcionar o Sol, teme ver a si no claro. A verdade é que teme a verdade sobre si. Teme é lançar a luz sobre as mais nítidas constatações de sua vileza.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
O que você quer?
Talvez a morte, no seu sentido mais podre, seja mesmo seu desejo mais genuíno, seu destino. Medíocre...
Contraditoriamente, tem a sua volta tudo aquilo de que precisa: os sabores e dissabores da vida a seu dispor; Tem a resposta de que precisava: não encontrará mais respostas; Tem o teu corpo, que ainda reluta e agoniza. E já sabes o nome de seus demônios.
Por que ainda foges?
O escuro será sempre teu abrigo, porque nenhuma luz merece o desprazer de revelar tua burlesca e trágica face.
Se não puder amar a si mesmo, tua perpétua inconstância e pequenez, então fuja!
Contraditoriamente, tem a sua volta tudo aquilo de que precisa: os sabores e dissabores da vida a seu dispor; Tem a resposta de que precisava: não encontrará mais respostas; Tem o teu corpo, que ainda reluta e agoniza. E já sabes o nome de seus demônios.
Por que ainda foges?
O escuro será sempre teu abrigo, porque nenhuma luz merece o desprazer de revelar tua burlesca e trágica face.
Se não puder amar a si mesmo, tua perpétua inconstância e pequenez, então fuja!
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Permitam-me uma contradição
"(...)-Não costumo falar com estranhos dessa maneira, mas não gosto de ver pessoas tristes. O que está acontecendo? É por causa de homem?
-Não, não é nada.(risos) Mas admiro sua iniciativa, muito bacana de sua parte.
-Só estou sendo humana!(...)"
O que é ser humano?
O que é ser vivo?
Por alguns instantes me peguei pensando a cerca dessas questões. E me dei conta de que talvez eu tenha me distanciado desses dois conceitos.
A essência, o ponto que realmente mais me tocou, já foi sucintamente relatado, porém a postagem ainda me parece demasiado curta para condizer fielmente com a relevância desse evento. Pretendo contextualizar melhor o leitor sobre o trecho que abre a postagem, e ainda escrever mais detalhadamente sobre outros aspectos importantes do ocorrido.
Pulsar...
"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"
-Não, não é nada.(risos) Mas admiro sua iniciativa, muito bacana de sua parte.
-Só estou sendo humana!(...)"
O que é ser humano?
O que é ser vivo?
Por alguns instantes me peguei pensando a cerca dessas questões. E me dei conta de que talvez eu tenha me distanciado desses dois conceitos.
A essência, o ponto que realmente mais me tocou, já foi sucintamente relatado, porém a postagem ainda me parece demasiado curta para condizer fielmente com a relevância desse evento. Pretendo contextualizar melhor o leitor sobre o trecho que abre a postagem, e ainda escrever mais detalhadamente sobre outros aspectos importantes do ocorrido.
Pulsar...
"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Permitam-me Uma Contradição
Permitam-me fazer uma correção a cerca da postagem precedente. Não farei exatamente agora, nem agora postarei a experiência que desencadeou tal conflito de idéias. Mas, certamente, o farei em breve.
Eu havia reservado para essa postagem um trecho importantíssimo do diálogo que presenciei hoje, mas deixarei para fazê-lo mais calmamente, quando o tempo me for suficiente.
Enfim, embora eu não vá desenvolver um escrito sobre o que exatamente representa essa contradição e sobre o que foi e o que significou tal experiência, deixarei aqui uma tradução em palavras do fruto desse episódio de hoje:
(Com sono, escrevo o resto amanhã.)
Eu havia reservado para essa postagem um trecho importantíssimo do diálogo que presenciei hoje, mas deixarei para fazê-lo mais calmamente, quando o tempo me for suficiente.
Enfim, embora eu não vá desenvolver um escrito sobre o que exatamente representa essa contradição e sobre o que foi e o que significou tal experiência, deixarei aqui uma tradução em palavras do fruto desse episódio de hoje:
(Com sono, escrevo o resto amanhã.)
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Impressão minha
Dado este longo intervalo de cinco dias, retomo meus escritos. E como prometido, agora em breve "trégua" com minhas perturbações, venho transcrever algumas percepções que se apresentaram à minha consciência no decorrer desses últimos dias.
Comumente esses frutos de elucubração emergem no decurso dos longos minutos em que me encontro enlatada no ônibus, a percorrer a cortês paisagem urbana no auge de suas nuances crepusculares. Mas diferentemente da maioria de minhas reflexões, esta surgiu enquanto eu esperava o relógio alcançar a hora de início da minha aula.
Como em toda terça-feira, acomodei-me sutil e silenciosamente sobre o corrimão que cerca o gracioso jardim dos corredores. E debruçada sobre as próprias pernas, no aguardo desapressado da chegada de meu docente, permaneci por alguns minutos. Enquanto um sol prematuro driblava os pilares de concreto do recinto e se preparava para podar minhas asas, um compasso açodado rompeu meu silêncio mental, e irrompeu-me de ouvir mais atentamente àquilo que era a única manifestação sonora do ambiente: o grito tácito de individualidade nos passos únicos da gente que ali passava. Um agudo de borracha de tênis no chão encerado, um oco cravado pelo salto-médio, um contínuo e arrastado deslizar de chinelos... Cerca de uma hora ouvindo a sinfonia de tais solitários e singulares passos. Engraçado que, de alguma maneira, enquanto ali estive cabisbaixa a acompanhar e contemplar a expressão da pisada de cada indíviduo, me ocorreu de pensar surpresa no quanto os homens encontram-se isolados. Mais tarde, ainda no mesmo dia, retomei essas idéias ao passo que os passos silenciosos foram substituídos pelo silencioso rugir de motor do ônibus.
Esquisito, mas naquele momento tomou-me uma sensação de lamúria por tamanho vácuo de ruídos humanos... De alguma maneira, aquele dia mudo levou-me a sentir o homem afastado de si mesmo, pouco comunicativo, isolado em bolhas particulares, doente.
Mas talvez seja só impressão minha.
Comumente esses frutos de elucubração emergem no decurso dos longos minutos em que me encontro enlatada no ônibus, a percorrer a cortês paisagem urbana no auge de suas nuances crepusculares. Mas diferentemente da maioria de minhas reflexões, esta surgiu enquanto eu esperava o relógio alcançar a hora de início da minha aula.
Como em toda terça-feira, acomodei-me sutil e silenciosamente sobre o corrimão que cerca o gracioso jardim dos corredores. E debruçada sobre as próprias pernas, no aguardo desapressado da chegada de meu docente, permaneci por alguns minutos. Enquanto um sol prematuro driblava os pilares de concreto do recinto e se preparava para podar minhas asas, um compasso açodado rompeu meu silêncio mental, e irrompeu-me de ouvir mais atentamente àquilo que era a única manifestação sonora do ambiente: o grito tácito de individualidade nos passos únicos da gente que ali passava. Um agudo de borracha de tênis no chão encerado, um oco cravado pelo salto-médio, um contínuo e arrastado deslizar de chinelos... Cerca de uma hora ouvindo a sinfonia de tais solitários e singulares passos. Engraçado que, de alguma maneira, enquanto ali estive cabisbaixa a acompanhar e contemplar a expressão da pisada de cada indíviduo, me ocorreu de pensar surpresa no quanto os homens encontram-se isolados. Mais tarde, ainda no mesmo dia, retomei essas idéias ao passo que os passos silenciosos foram substituídos pelo silencioso rugir de motor do ônibus.
Esquisito, mas naquele momento tomou-me uma sensação de lamúria por tamanho vácuo de ruídos humanos... De alguma maneira, aquele dia mudo levou-me a sentir o homem afastado de si mesmo, pouco comunicativo, isolado em bolhas particulares, doente.
Mas talvez seja só impressão minha.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
sábado, 21 de agosto de 2010
Lusco-fusco e sole-primo
Sim, escrevo coisas sem sentido, mas somente agora e depois de tão longo tempo dou-me o luxo de sonhar e suspirar esperança. Sinto, insuportávelmente, que este blog sou eu, e que este espaço tornou-se os meus próprios ouvidos e que aqui fico a regougar sobre mim, eu, e mim mesma. Mas isto passa, pretendo que logo, postarei mais sobre quando conseguir uma trégua com meus demônios. Vamos à postagem:
Tem sido doloroso, como são naturalmente os partos. Já era hora de abortar a tênia de tristeza que me absorvia as forças, e construir uma nova essência. Encerrada aqui a sessão de lástimas e silêncio-nênia.
Viver também está se tornando um compromisso de reconhecimento com aquelas que têm, juntamente comigo, dado luz a uma nova existência. Existência não vazia como a de outrora, que meia-morta meia-doentia apenas engolia as horas. Existência ainda incógnita, mas ansiosamente desejada como o primeiro contato com as feições do filho.
Compromisso, contrariando a definição semântica do termo, não foi empregado como obrigação ou contrato, mas como motivo. Como a força extra, como impulso aos primeiros passos.
Depois de escritas as primeiras linhas, agora talvez contradizendo-me, talvez mais do que parto, seja este momento um aborto. Seria mais uma escolha, um ser ou não ser. Expulsão, não tão espontânea, de uma não tão prematura cria, feita de vazio e decadência, que se alimenta da minha vontade e não deixa crescer a outra, que é vida. Haveria de ser duro mesmo arrancar, arrebatar, extrair este cancêr que afinal, é pelo que me conheço. Mas aguardo a ira solar cortar a manta negra desta noite, e engolir me com o anil do céu. Pra que morra o cancêr, e viva alguém que nem lembro mais quem é, mas que é viva.
Não sei se o otimismo que emanou daquelas pílulas realmente se deve a sua composição química, e nem se a autora que hoje escreve é dele títere, porém quero dizer-me, quero crer-me, agora forte.(Evitando negativismo - foi-me recomendado)
Tem sido doloroso, como são naturalmente os partos. Já era hora de abortar a tênia de tristeza que me absorvia as forças, e construir uma nova essência. Encerrada aqui a sessão de lástimas e silêncio-nênia.
Viver também está se tornando um compromisso de reconhecimento com aquelas que têm, juntamente comigo, dado luz a uma nova existência. Existência não vazia como a de outrora, que meia-morta meia-doentia apenas engolia as horas. Existência ainda incógnita, mas ansiosamente desejada como o primeiro contato com as feições do filho.
Compromisso, contrariando a definição semântica do termo, não foi empregado como obrigação ou contrato, mas como motivo. Como a força extra, como impulso aos primeiros passos.
Depois de escritas as primeiras linhas, agora talvez contradizendo-me, talvez mais do que parto, seja este momento um aborto. Seria mais uma escolha, um ser ou não ser. Expulsão, não tão espontânea, de uma não tão prematura cria, feita de vazio e decadência, que se alimenta da minha vontade e não deixa crescer a outra, que é vida. Haveria de ser duro mesmo arrancar, arrebatar, extrair este cancêr que afinal, é pelo que me conheço. Mas aguardo a ira solar cortar a manta negra desta noite, e engolir me com o anil do céu. Pra que morra o cancêr, e viva alguém que nem lembro mais quem é, mas que é viva.
Não sei se o otimismo que emanou daquelas pílulas realmente se deve a sua composição química, e nem se a autora que hoje escreve é dele títere, porém quero dizer-me, quero crer-me, agora forte.(Evitando negativismo - foi-me recomendado)
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Li, gostei e postei
O Objectivo da Arte não é Ser Compreensível 
Toda a arte é expressão de qualquer fenómeno psíquico. A arte, portanto, consiste na adequação, tão exacta quanto caiba na competência artística do fautor, da expressão à cousa que quer exprimir. De onde se deduz que todos os estilos são admissíveis, e que não há estilo simples nem complexo, nem estilo estranho nem vulgar.
Há ideias vulgares e ideias elevadas, há sensações simples e sensações complexas; e há criaturas que só têm ideias vulgares, e criaturas que muitas vezes têm ideias elevadas. Conforme a ideia, o estilo, a expressão. Não há para a arte critério exterior. O fim da arte não é ser compreensível, porque a arte não é a propaganda política ou imoral.
Fernando Pessoa.

Toda a arte é expressão de qualquer fenómeno psíquico. A arte, portanto, consiste na adequação, tão exacta quanto caiba na competência artística do fautor, da expressão à cousa que quer exprimir. De onde se deduz que todos os estilos são admissíveis, e que não há estilo simples nem complexo, nem estilo estranho nem vulgar.
Há ideias vulgares e ideias elevadas, há sensações simples e sensações complexas; e há criaturas que só têm ideias vulgares, e criaturas que muitas vezes têm ideias elevadas. Conforme a ideia, o estilo, a expressão. Não há para a arte critério exterior. O fim da arte não é ser compreensível, porque a arte não é a propaganda política ou imoral.
Fernando Pessoa.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Sonolenta
Se eu fosse borboleta, partiria em minhas asas de lírio, a liquefazer-me sob o azul ardente da tarde.
Mas sou rata, e aqui fico estática a roer as próprias fezes, num cantinho escuro de despensa de padaria.
Talvez seja sina, o faço desde que envenenou-me um beijo acre da janual senhora Vida. Desde que esta perversa deixou-me no couro um verme, que a tudo devorou, tornou me rara e rarefeita. Arrotar toda a quase-inexistente-quintessência que existe... Eu não sinto sono às 22:00h, mas estou quase dormindo.
Mas sou rata, e aqui fico estática a roer as próprias fezes, num cantinho escuro de despensa de padaria.
Talvez seja sina, o faço desde que envenenou-me um beijo acre da janual senhora Vida. Desde que esta perversa deixou-me no couro um verme, que a tudo devorou, tornou me rara e rarefeita. Arrotar toda a quase-inexistente-quintessência que existe... Eu não sinto sono às 22:00h, mas estou quase dormindo.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
sábado, 7 de agosto de 2010
Abreviando a Carta para a Sensei - I
Percebi que, mesmo tentando ser breve, escrevi um livro sobre o evento de hoje. rsrsrs
E por isso, caso esteja sem paciência para ler aqueles milhares de detalhes, sobre os quais eu poderia passar eras escrevendo hushhsuhs, deixo aqui uma sintese do que realmente quero dizer-te, Sensei:
Obrigada, pelo carinho. Obrigada, por agora eu poder sentir você ainda mais perto do que você já está sempre, no meu pensamento. :')
Ah, e teremos a Carta para Sensei - II, que eu vou me esforçar para fazer mais concisa que a primeira, e que será enviada, muito em breve, mas da maneira tradicional.
E por isso, caso esteja sem paciência para ler aqueles milhares de detalhes, sobre os quais eu poderia passar eras escrevendo hushhsuhs, deixo aqui uma sintese do que realmente quero dizer-te, Sensei:
Obrigada, pelo carinho. Obrigada, por agora eu poder sentir você ainda mais perto do que você já está sempre, no meu pensamento. :')
Ah, e teremos a Carta para Sensei - II, que eu vou me esforçar para fazer mais concisa que a primeira, e que será enviada, muito em breve, mas da maneira tradicional.
Carta para a Sensei - I
Querida Sensei,
Hoje recebi o melhor presente de aniversário de minha vida, e lhe escrevo para agradecer e dizer tudo aquilo que não consegui transmitir quando o tentei fazer no cara-a-cara, ou melhor, no voz-a-voz. Já percebeste que não sou boa em conversar ao telefone, mas tenho uma boa desculpa para isso: sempre que falo com você, me toma uma emoção que embola minha lingua e meus pensamentos.
Então, a minha tão esperada e estimada caixa chegou e me deixou abobada pelo resto do dia. Estava a cortar cebolas para um vinagrete, que acompanharia o almoço de hoje, e a derramar algumas lágrimas por esse motivo, quando me interrompeu o árduo trabalho o carro do Sedex. Não sei se vi demais, mas senti que o moço da entrega me recebeu com um sorriso, intuitivo, uma previsão de bom acontecimento, de coisa especial. Pessoa, saí da cozinha mais trêmula que gelatina em terremoto, agarrei me àquela caixa no portão e rabisquei uma assinatura a la sofredora de mal de Parkinson. Puxa vida, ainda não consigo descrever o que senti quando tive pela primeira vez em minhas mãos algo já teria passado pelas suas.
Sei que as lágrimas, de cebola, encontraram um motivo muito mais justo para existir e percorrer minha cara enrugada. Eu até tentei escondê-las do pessoal aqui em casa, mas no fundo mesmo, eu não queria, eu queria mesmo era continuar naquele momento tão bacana. Pior, aliás, melhor foi quando abri, rasguei vorazmente, desesperada, ansiosa aquela caixa e vi lá dentro aquele cd, aquela embalagem da Ri Happy, aquele cartãozinho e o saquinho vermelho.
Nick Drake, o cd do Nick Drake! O cd que era seu! O cara incrível que me apresentou você... Tasquei no toca disco, e fui rasgar o outro pacote, que eu já tinha apalpado e sentido toda a fofura. Poxa vida, aquele bichinho felpudo, azul e lindo me lembrou o melocoton, que eu adorava na infância, e agora está acomodado na minha cabeceira de cama, que é vítima de uma de minhas excentricidades, e mantém a mesma arrumação há alguns anos. Agora ela manterá uma nova arrumação por todos os anos que virão, ornamentada com meu bichinho azul que pretendo nomear de avatar.
Li o belo e gracioso cartãzinho, e fui para a parte que mais me avassalou. Desamarrei a fitinha amarela do saquinho, e encontrei as coisas mais preciosas que já ganhei. O broche, a chave, a pulseira, a carta e a foto, que a principio pensei ser um apontador. Com todas aquelas coisinhas, pude sentir sua energia, de alguma maneira estranha aquilo me chegou familiar, e tão doce, e tão encantador... Como respirar uma brisa boa... E eu que antes me sentia afobada, como se tivesse andando na roda gigante, agora estava muito enternecida, tocada e serena, tomada de alegria. Comecei a ler a cartinha, inclusive tenho que comentar que achei lindíssima sua caligrafia, e vi o que você foi escrevendo sobre cada coisinha: sobre o broche, que te faz lembrar de mim; sobre
a chavinha, sobre a pulseira que eu já estou usando, e finalmente sobre a foto. A princípio eu não estava entendendo, e cheguei a me perguntar: "Será que eu perdi a foto? Será que ela esqueceu?". Então fui analisar aquilo que para mim era um "apontador", e depois de girá-lo um pouquinho e abrir a tampinha, descobri a lente na base menor. Olhei, mas estava escuro, foi quando mirei para a fresta de luz que raiava da janela e vi aquele anjo com a bonequinha. Sim, aí sim, você me pegou de verdade, Sensei. Obrigada por me mandar esse presente tão especial, obrigada por estar agora um poquinho mais perto fisicamente de mim. :')
Hoje recebi o melhor presente de aniversário de minha vida, e lhe escrevo para agradecer e dizer tudo aquilo que não consegui transmitir quando o tentei fazer no cara-a-cara, ou melhor, no voz-a-voz. Já percebeste que não sou boa em conversar ao telefone, mas tenho uma boa desculpa para isso: sempre que falo com você, me toma uma emoção que embola minha lingua e meus pensamentos.
Então, a minha tão esperada e estimada caixa chegou e me deixou abobada pelo resto do dia. Estava a cortar cebolas para um vinagrete, que acompanharia o almoço de hoje, e a derramar algumas lágrimas por esse motivo, quando me interrompeu o árduo trabalho o carro do Sedex. Não sei se vi demais, mas senti que o moço da entrega me recebeu com um sorriso, intuitivo, uma previsão de bom acontecimento, de coisa especial. Pessoa, saí da cozinha mais trêmula que gelatina em terremoto, agarrei me àquela caixa no portão e rabisquei uma assinatura a la sofredora de mal de Parkinson. Puxa vida, ainda não consigo descrever o que senti quando tive pela primeira vez em minhas mãos algo já teria passado pelas suas.
Sei que as lágrimas, de cebola, encontraram um motivo muito mais justo para existir e percorrer minha cara enrugada. Eu até tentei escondê-las do pessoal aqui em casa, mas no fundo mesmo, eu não queria, eu queria mesmo era continuar naquele momento tão bacana. Pior, aliás, melhor foi quando abri, rasguei vorazmente, desesperada, ansiosa aquela caixa e vi lá dentro aquele cd, aquela embalagem da Ri Happy, aquele cartãozinho e o saquinho vermelho.
Nick Drake, o cd do Nick Drake! O cd que era seu! O cara incrível que me apresentou você... Tasquei no toca disco, e fui rasgar o outro pacote, que eu já tinha apalpado e sentido toda a fofura. Poxa vida, aquele bichinho felpudo, azul e lindo me lembrou o melocoton, que eu adorava na infância, e agora está acomodado na minha cabeceira de cama, que é vítima de uma de minhas excentricidades, e mantém a mesma arrumação há alguns anos. Agora ela manterá uma nova arrumação por todos os anos que virão, ornamentada com meu bichinho azul que pretendo nomear de avatar.
Li o belo e gracioso cartãzinho, e fui para a parte que mais me avassalou. Desamarrei a fitinha amarela do saquinho, e encontrei as coisas mais preciosas que já ganhei. O broche, a chave, a pulseira, a carta e a foto, que a principio pensei ser um apontador. Com todas aquelas coisinhas, pude sentir sua energia, de alguma maneira estranha aquilo me chegou familiar, e tão doce, e tão encantador... Como respirar uma brisa boa... E eu que antes me sentia afobada, como se tivesse andando na roda gigante, agora estava muito enternecida, tocada e serena, tomada de alegria. Comecei a ler a cartinha, inclusive tenho que comentar que achei lindíssima sua caligrafia, e vi o que você foi escrevendo sobre cada coisinha: sobre o broche, que te faz lembrar de mim; sobre
a chavinha, sobre a pulseira que eu já estou usando, e finalmente sobre a foto. A princípio eu não estava entendendo, e cheguei a me perguntar: "Será que eu perdi a foto? Será que ela esqueceu?". Então fui analisar aquilo que para mim era um "apontador", e depois de girá-lo um pouquinho e abrir a tampinha, descobri a lente na base menor. Olhei, mas estava escuro, foi quando mirei para a fresta de luz que raiava da janela e vi aquele anjo com a bonequinha. Sim, aí sim, você me pegou de verdade, Sensei. Obrigada por me mandar esse presente tão especial, obrigada por estar agora um poquinho mais perto fisicamente de mim. :')
sábado, 31 de julho de 2010
Sobre as noites
Se é manhã, aurora vermelha, é canto de pardal, pão e cheiro de jornal.
E se é tarde, deitam-se nuvens de sal no campo verde-bolor. Bate o sol no vitral, entra sede e calor
Mas se é noite, um riso rouco rompe o breu e abre um cinza no céu. Rasga no ar um grito, o caminhão do lixo. Às nove, no vento, serpenteia um choro estrídulo, de morcego. Às dez, desvenda o luar um gato trêfego. Às onze, as onças surgem das trevas e atacam. Às doze eu morro, e depois disso já é amanhã.
E se é tarde, deitam-se nuvens de sal no campo verde-bolor. Bate o sol no vitral, entra sede e calor
Mas se é noite, um riso rouco rompe o breu e abre um cinza no céu. Rasga no ar um grito, o caminhão do lixo. Às nove, no vento, serpenteia um choro estrídulo, de morcego. Às dez, desvenda o luar um gato trêfego. Às onze, as onças surgem das trevas e atacam. Às doze eu morro, e depois disso já é amanhã.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
About music: Luís Capucho
Há aproximadamente uns dois anos, enquanto eu rodava o adorável cd "Com você... Meu mundo ficaria completo", da fodástica Cássia Eller, fui surpreendida com uma canção exótica e deliciosa chamada "Maluca". Faziam apenas alguns meses que eu havia iniciado uma frustrada carreira de musicista amadora e a faixa não me escapou de umas boas arranhadas no violão e nem de uma pesquisa mais profunda sobre seu autor. Foi aí que descobri Luís Capucho, um gênio, que dá luz há um som híbrido, transparente e único.
O sujeito de Cachoeiro do Itapemirim já conta com alguns sucessos nacionais como "Máquina de Escrever", feita em parceria com Mathilda Kovak, e "Maluca", interpretada com excelência pela Cássia.
Além da música, o cara também se insere na arte através da literatura. Até agora tenho conhecimento de duas publicações: "Cinema Orly" e "Rato". Como ainda não os li, não escreverei sobre, mas para aqueles que têm interesse não será tão difícil encontrar informações e críticas sobre seus livros na rede.
A singularidade de Capucho, a maneira original como tece sua poesia, que por vezes é até sinestésica de tão sincera, é o que mais me surpreende e conquista. A forma livre de dispor suas letras arrebata admiração daquele que ouve ou lê seus versos. Para encerrar o post de hoje, deixarei aqui alguns links interessantes sobre o Luís e a canção "Velha", já citada numa postagem anterior, que eu adoro e que expõe bem a singela e peculiar beleza do trabalho desse artista:
http://luiscapucho.blogspot.com/
http://www.myspace.com/luiscapucho
http://www.cronopios.com.br/site/lancamentos.asp?id=2491
terça-feira, 27 de julho de 2010
Verborragicamente Agressiva
Vai tomar raticida pra curar disenteria emocional.
Vai correr pela cidade e ressurgir no olho da privada.
Morrerá atropelada no ventre cáustico das ruas e desintegrará, no vento sujo, sua singular inframediocridade.
Fuga leviana, pernas estabanadas. Quem mandou nascer rata em couro de mulher? Quem mandou?
Luz abortada,
Cachorra vadia
Esquecida de casa.
Vai correr pela cidade e ressurgir no olho da privada.
Morrerá atropelada no ventre cáustico das ruas e desintegrará, no vento sujo, sua singular inframediocridade.
Fuga leviana, pernas estabanadas. Quem mandou nascer rata em couro de mulher? Quem mandou?
Luz abortada,
Cachorra vadia
Esquecida de casa.
23/07/2010
Vou transcrever uns trechos que escrevi ontem à noite, sem papel. Ontem à noite alguma coisa cortou essa modorra que me amordaça há tanto tempo. Alguma coisa cortou o céu, alguma coisa rara procurou meus olhos ontem à noite. Foi estranho ver aquilo que eu tanto queria, só porque achava que nunca poderia vê-lo.
Era tardinha, na hora em que as cores correm pelo céu e o sol vai fugindo, cedendo, timidamente, seu lugar para a luazinha serena se acender. Roxo em cima, dourado em baixo, alguns cristaizinhos já rodeavam nosso esférico satélite natural. Não tenho certeza se era um disco voador, ou uma estrela cadente a coisa extra-rotineira que cruzou o espaço naquele breve e não tão menos raro momento em que pus os pés fora de casa após o cessar do dia. Eu sei que foi belo e curto, um surto, um furto de consciência, uma intensa e brevíssima trégua de tudo.
Interessante, porque, neste mesmo momento, eu trazia na língua a “Velha”, de Luís Capucho( um gênio sobre o qual falarei em breve, aqui mesmo). A doce canção se tornou trilha sonora daquele fenômeno único, e ainda nesse curto intervalo de tempo, me veio à memória uma pessoa muito querida. E veio porque foi justamente em função desta pessoa que eu redescobri a música, especialmente por causa da ternura que as duas compartilham.
Enfim, foi um momento mágico. Jamais o esquecerei.
Vou transcrever uns trechos que escrevi ontem à noite, sem papel. Ontem à noite alguma coisa cortou essa modorra que me amordaça há tanto tempo. Alguma coisa cortou o céu, alguma coisa rara procurou meus olhos ontem à noite. Foi estranho ver aquilo que eu tanto queria, só porque achava que nunca poderia vê-lo.
Era tardinha, na hora em que as cores correm pelo céu e o sol vai fugindo, cedendo, timidamente, seu lugar para a luazinha serena se acender. Roxo em cima, dourado em baixo, alguns cristaizinhos já rodeavam nosso esférico satélite natural. Não tenho certeza se era um disco voador, ou uma estrela cadente a coisa extra-rotineira que cruzou o espaço naquele breve e não tão menos raro momento em que pus os pés fora de casa após o cessar do dia. Eu sei que foi belo e curto, um surto, um furto de consciência, uma intensa e brevíssima trégua de tudo.
Interessante, porque, neste mesmo momento, eu trazia na língua a “Velha”, de Luís Capucho( um gênio sobre o qual falarei em breve, aqui mesmo). A doce canção se tornou trilha sonora daquele fenômeno único, e ainda nesse curto intervalo de tempo, me veio à memória uma pessoa muito querida. E veio porque foi justamente em função desta pessoa que eu redescobri a música, especialmente por causa da ternura que as duas compartilham.
Enfim, foi um momento mágico. Jamais o esquecerei.
domingo, 25 de julho de 2010
Advertência
O que escreverei aqui não é nada saudável para o juízo do leitor, tampouco é dotado de coerência ou clareza. Estas letras de nada servem se não para consumir o ócio antes que ele me consuma. E creio, espero, que este também seja o objetivo daquele que se atreve a gastar tempo com meus textos.
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